Eu já tive muito preconceito com relação às orações decoradas. Para mim elas deveriam ser totalmente espontâneas, fruto do improviso, usando palavras vindas de um coração cheio de sentimento e paixão. Como um bom evangélico aprendi que orar era dizer a Deus o que estava sentindo, era apresentar a Deus meu louvor e meus pedidos, e tudo isso de forma totalmente original, sem repetições.

Na prática protestante da oração evita-se o que é visto como reza e, na verdade, há uma disputa velada para defender a oração que cada um acha que "vale mais". Obviamente os protestantes dizem que a oração espontânea é a mais sincera, a mais profunda e verdadeira. Essa noção parte do princípio de que a oração não deve ser repetida e, sendo original, ela é a minha oração, e por isso mais valiosa.

Nos últimos anos, ao ficar sem palavras para minhas próprias orações, passei a fazê-las lendo, recitando (e orando) as orações que muitas pessoas fizeram, e compreendi o imenso valor delas e das pessoas que as fizeram.

Sem as minhas palavras usei palavras de outros e disse coisas que normalmente não diria. Usei palavras que não costumava usar e expressões que nunca sairiam da minha boca espontaneamente. Isso enriqueceu meu vocabulário e abriu para mim novas janelas para enxergar a Deus.

Ao fazer orações lendo as que outros fizeram não fico dizendo sempre a mesma coisa. Uma das razões que levam os protestantes a evitar as orações aprendidas é que elas, segundo eles, engessam o discurso, mas na prática, as orações espontâneas acabam não sendo tão espontâneas assim. É muito comum dizermos as mesmas palavras mesmo sem perceber. Começamos a oração sempre com as mesmas expressões e terminamos sempre do mesmo jeito, e isso pela vida inteira.

Muitas vezes não temos palavras para orar. Estamos cansados demais ou inquietos demais para desenvolver pensamentos espirituais, deprimidos demais para encontrar palavras para Deus ou esgotados demais para fazer qualquer coisa. Nesses momentos, ler uma oração pode dar origem a uma experiência de fé profunda e cheia de amor. Nossas palavras podem ser esquecidas, porque temos acesso, através do portão que alguém abriu através da oração, ao mistério do invisível. Nos aproximamos do coração de Deus.

Usando palavras de outros na oração posso ver como as pessoas se relacionam com Deus e enriquecer minha própria experiência. Além disso, existem pessoas bem mais piedosas que eu, e ler suas orações me ajuda a crescer espiritualmente.

Ler e orar as orações que outros fizeram me ajuda a respeitar a espiritualidade das pessoas. A humanidade ora e aprendi a não menosprezar isso. Respeito, admiro e compreendo seus anseios, suas lutas, seus lamentos, suas alegrias e superações. Aprendi que não existe uma oração certa, só oração.
Muita gente piedosa deixou orações registradas: Moisés, Davi, Isaías, Jeremias, Daniel, João, Paulo, Sto Agostinho, S. Francisco de Assis, Madre Teresa, Anselm Grün, Henri Nouwen, e muitos outros. Além dos autores bíblicos muitos deixaram suas obras em forma de livros que estão disponíveis para a leitura ainda hoje. Recomendo que leia e os acrescente à sua prática de oração. Será muito enriquecedor.

Conheça o livro Quando a gente muda
Contato e comentários: danielglimajr@gmail.com
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional