Quando éramos crianças um de nossos maiores desejos era o de ter a atenção das pessoas. Era comum fazermos gestos e nos comportarmos de maneira diferente apenas para sermos notados, especialmente pelos nossos pais ou pelas pessoas importantes para nós. Tentávamos de todas as formas chamar os olhos dos pais para nós, para o que estávamos fazendo ou para nossos arranhões e machucados. Nossa primeira providência ao chegar em casa com um desenho novo feito na escola era mostrar ao pai e à mãe.

Queríamos chamar à atenção, de todos, se possível. Esse era um movimento normal que naturalmente ainda hoje se repete em praticamente todas as relações pessoais, sejam familiares ou não. Também não havia mecanismos para isso, tudo era espontâneo, fruto apenas das saudáveis necessidades de afeto, carinho e atenção.
Apesar de continuar acontecendo neste âmbito da normalidade, chamar à atenção hoje virou coisa de profissional. A indústria do marketing, do mundo digital e da inteligência artificial já sabem como fazer isso muito melhor do que nós quando éramos crianças. Hoje essa tarefa é milimetricamente realizada por algoritmos complicadíssimos mas efetivamente precisos e bem-sucedidos.
É invasivo, perigoso, quase criminoso, e ninguém sabe com certeza como isso será usado no futuro. Quando acessamos as redes sociais, por exemplo, nossos passos são seguidos e a IA consegue entender o que estamos pensando e o que estamos querendo, melhor, desejando. Não é à toa que cada vez mais nossos dados vazam de certos provedores ou redes sociais (os ingênuos acham que é desintencional ou falha acidental). Tudo é colhido, cada clique, cada olhar, tempo de resposta, e até mesmo o tom da nossa voz.
Usando todos esses recursos que estão fora da nossa mente a IA já consegue chamar a nossa atenção e fazer coisas inimagináveis como nos induzir a fazer o que ela ou as empresas querem, especialmente consumir desenfreadamente. O passo mais ousado e mais cobiçado agora é fazer isso de dentro de nossa mente. Acredite, isso é possível e está a poucos anos de distância de nós.

"Diversas pesquisas têm sido feitas também na área da produtividade e do trabalho. As empresas, por exemplo, vão usar em um futuro muito próximo recursos cada vez mais invasivos para escolher seus funcionários. Os chamados "algoritmos" já conseguem fornecer informações confiáveis sobre nossas habilidades e também sobre o que não somos capazes de realizar.

O quadro preocupa ainda mais quando pensamos no futuro que os cientistas-profetas anunciam: "Analisar a atividade cerebral de uma pessoa para saber o que ela está pensando e até mesmo manipulá-la para controlar seus atos será procedimento de rotina daqui há trinta anos, e essas mesmas tecnologias também poderão alterar o cérebro de pessoas saudáveis, violar sua privacidade até limites insuspeitados, dinamitar conceitos como a identidade pessoal e questionar quem é responsável por um ato, o humano ou a máquina à qual ele está conectado". Alguém tem dúvidas de que isso tudo impactará a autoestima e a saúde emocional das pessoas?


Dependentes do computador e da internet como somos hoje e considerando que não escaparemos de alguns efeitos nocivos dessa máquina eu realmente não saberia apontar uma solução plenamente satisfatória e definitiva, mas posso sugerir o que os analistas mais preocupados já estão comunicando: Controle com cuidado o uso das redes sociais e fuja dos cliques nos anúncios vinculados nos sites. É meio simplório, reconheço, mas ajuda.
Eu também tenho conta no Instagram, escrevo aqui no blog, e uso a internet para várias coisas, mas estou tentando restringir esse uso. Estou tentando usar apenas uma rede social, centralizando a escrita e o armazenamento das minhas informações em um ou dois recursos baseados em nuvem, usando bloqueadores de anúncios nos navegadores e controlando o tempo em que passo me expondo nas redes (veja bem, eu uso a rede, mas estou tentando restringir o tempo de exposição).
O recurso mais importante é o alerta. É preciso ficar atento, controlar o impulso e dominar conscientemente as ações diante da tela. Há coisas importantes a fazer e há momentos de puro lazer para se divertir, mas é preciso atenção. É altamente recomendável.





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