"Então, Jacó orou: Deus de meu pai Abraão, Deus de meu pai Isaque, o Eterno, que me disseste: Volte para a terra de seus pais, e farei bem a você. Não mereço todo amor e toda a fidelidade que tens demonstrado para comigo (sou indigno). Quando saí deste lugar e atravessei o Jordão, levava apenas a roupa do corpo, mas olha para mim hoje: dois acampamentos!"
Gênesis 32:9,10 (A Mensagem)

Li esse texto da Bíblia na semana passada em um momento de comunhão com Deus e ele chamou minha atenção por muitos motivos. Desde a aflição de Jacó diante da possibilidade de um confronto sangrento que colocaria em risco a vida de seus familiares até sua atitude perante Deus, que demonstra uma confiança ao mesmo tempo realista (mesmo confiando precisa fazer alguma coisa prática) e sobrenatural (Senhor, faz alguma coisa porque não tenho a capacidade de resolver tudo sozinho), tudo é muito bonito e surpreendente e é impossível passar pelo texto sem aprender alguma coisa.

Mas uma coisa saltou aos meus olhos e é dela que parte o que estou considerando como fonte segura de saúde emocional (e espiritual também) de qualquer pessoa: Jacó diz a Deus em sua oração: "Não mereço todo amor e toda a fidelidade que tenho recebido, sou indigno". Me assentei sobre essa palavra e meditei. Como alguém pode passar de "apenas a roupa do corpo" para "dois acampamentos" (muita riqueza) e continuar humilde? E mais: Como alguém pode se ver indigno sem adoecer? A resposta é uma só e esclarece o que estou considerando como fonte de saúde: A gratidão.

É impossível considerar-se indigno e continuar saudável sem ser grato. A linha que separa a humildade e esse sentimento de indignidade da autopiedade, da baixa autoestima e da vergonha de si mesmo é muito estreita, passa-se de um lado para o outro com muita facilidade.

A gratidão é o que nos faz perceber que não somos merecedores sem no entanto exigir reparação. Tudo é imerecido, o cajado e também a riqueza, mas não os negamos quando nos são oferecidos como presentes em nome do "dê a alguém melhor que eu".

É a gratidão que equilibra nossa mente e nossos valores e fecha a porta para as temidas comparações. A gratidão não nos faz indigno diante dos outros mas diante do Deus que nos oferece tudo o que temos, somos, fazemos e construímos. A gratidão conserta nossa alma e calibra nossos olhos.

A gratidão nos salva da inveja, do ódio e do relaxamento. Quando somos gratos não abandonamos o que temos esperando que o que almejamos chegue e finalmente falemos: Agora sim, isso é digno dos meus cuidados. A gratidão nos faz cuidar "apenas da roupa do corpo" e do "cajado" da mesma forma que cuidamos dos "dois acampamentos".

Quando alcançamos esse lugar de gratidão significa que chegamos a um lugar de paz. Nosso coração descansa e se satisfaz com uma plenitude nova a cada dia. A cada fase da vida se abastece com uma visão constante de que tudo é importante, tudo é a vida e nenhuma experiência deve ser jogada fora. Para os agradecidos os "dois acampamentos" não excluem "a roupa do corpo" da mesma forma que as alegrias não excluem os sofrimentos. Cada prato de caviar não nos faz esquecer do arroz com feijão.

Quero o cajado, a roupa do corpo, os dois acampamentos, os bois, as ovelhas e tudo mais. Quero especialmente viver cada vez mais agradecido por tudo e por todos, agradecido à vida, agradecido a Deus.






Photo by Debby Hudson