Crise de identidade é um negócio sério, esquisito e até meio louco. Eu suspeito de que, apesar do tempo já distante em que tudo começou (ou "descomeçou"), ainda não consegui entender e muito menos chegar à uma conclusão minimamente satisfatória do que sou ou de quem realmente sou.

Aquelas perguntas tradicionais, "Quem sou?", "de onde vim?", "para onde vou", ou "o que estou fazendo aqui?", continuam martelando na minha cabeça já dolorida de tanta pancada. Não consigo e não sei respondê-las. Cansado mesmo de ter aquela velha opinião formada sobre tudo sigo de carona com o Raul perambulando de metamorfose em metamorfose pendurado num cipó ao lado do Tarzan*.



A aflição que essa situação me provoca é impossível de esconder. Primeiro eu começo a ficar impaciente, irritado. Depois progride para a angústia, e por fim, a tristeza. Nesse estágio os ansiolíticos são meus amigos, me fazem dormir e esquecer que não sei o que sou.

O outro lado da moeda é que a situação também provoca momentos bons, sentimentos e expectativas muito agradáveis. Durante esses anos de transformação pessoal eu conheci muita gente extraordinária. Ter aberto as portas do meu mundo me fez encontrar amigos e amizades excepcionais, gente bondosa, gente com experiências de vida inspiradoras, outras com lutas intensas e graves, e outras para ser apenas amigas mesmo, pra fazer nada, comer pão com linguiça, rir bastante e sentir saudade.

Quanto às expectativas fico na espera de que um dia eu volte a poder dizer o que sou. Essa coisa de dizer o que sou é exigência da nossa sociedade. Eu tenho que ser alguma coisa produtiva, ou tenho que ser formado em alguma ciência, tenho que ter uma profissão identificadora, uma religião, um selo, um código de barras, uma tarjeta ou etiqueta. De qualquer forma, espero saber pelo menos o caminho básico, ou ter algumas informações a mais que meu CPF.

Enquanto isso sou tudo e sou nada. Devo estar caminhando para passar meus dias numa casinha branca de varanda, brincando com meus netos de tocar nas dormideiras para vê-las fechar suas folhinhas verdes e contando para eles como é perigoso apostar na "coisa produtiva" como única fonte de identidade e valor pessoal. Vou explicar para eles que a vida é mais que produção e que a felicidade sempre estará em todos os lugares.

Felizes são aqueles que tem vários olhos para vê-la.

*https://pt.wikipedia.org/wiki/Krig-ha,_Bandolo!


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