Por Luciana Campos
"O lugar da alma é onde se tocam o mundo interior e o exterior. Porque ninguém se conhece, a si mesmo, se é só ele mesmo e não também o outro ao mesmo tempo." Novalis
Final de março, manhã de terça-feira. O primeiro atendimento do dia, é de uma mulher, pedagoga que atua também como professora dos anos iniciais do ensino fundamental. "Gosto de lecionar na escola particular", ela me diz... "Me sinto bem em um ambiente de crianças que são cuidadas pela família, de um modo que nunca fui..."

O paciente seguinte, em busca da própria identidade desde que abandonou o ofício que exerceu por quase trinta anos, me diz: "Encontrei um novo alento: consertar bicicletas...Fazer a manutenção, montar, desmontar, tudo isso me traz um ânimo novo... não imaginava que o cansaço de um trabalho braçal fosse me fazer tão bem"...
A terceira paciente, demitida por aqueles dias de uma empresa onde ficou por quase vinte anos admite: "Agora sim, tiraram o meu chão... perder o namorado, ver a saúde débil de minha mãe me impactaram, mas agora... retiraram o lugar onde eu depositava a minha segurança, onde estava ancorada a minha autoestima"...
O trabalho em consultório tem dessas coisas: acontece de num mesmo dia, termos um tema recorrente. Ou talvez não seja isso, o psicólogo, artesão da interpretação, construtor de sentidos, faça a tessitura do tema comum, embora cada qual tenha trazido o seu enfoque. Não importa. Os atendimentos daquele dia me fizeram lembrar do velho Rodolfo Bohoslavsky, que me ensinou que a escolha de uma profissão pode ter uma "função reparadora", ou seja, através do meu fazer profissional, posso estar resgatando e reparando questões arcaicas, em geral, infantis: "adoro estar com crianças que são cuidadas como nunca fui"... a professora que profere esta frase, também é uma cuidadora zelosa das crianças mencionadas e ao cuidá-las, cuida também da criança interior que teve tais cuidados negados.
A advogada que tinha toda a sua autoestima ancorada no trabalho, está tendo a oportunidade de descobrir novas coisas sobre si, inclusive de desenvolver outras áreas de sua autoestima: como mãe, como filha, para depois retomar a vida profissional de um outro lugar, com uma perspectiva mais amadurecida e saudável, sem atribuir ao trabalho o local de todas as suas gratificações.
Mas o homem que conserta bicicletas me chama atenção de um modo especial... Ele sabe que é um fazer transitório...Como um nadador que toma fôlego após um longo mergulho, neste momento ele começa timidamente a respirar após uma depressão severa... Acredito que consertar bicicletas seja a metáfora perfeita para o autocuidado, o "autoconserto", o autocarinho.
Na faculdade de psicologia aprendi que aquele que escolhe esta profissão, o faz por uma profunda identificação com a ferida narcísica do outro... A psicóloga ao cuidar das feridas do outro, certamente tem as suas próprias devidamente cicatrizadas... Que delícia trabalhar com o ser humano!
"E sem o seu trabalho, um homem não tem honra... Guerreiros são pessoas, tão fortes, tão frágeis... guerreiros são meninos, no fundo do peito…" (Fagner)

Luciana Campos: psicóloga pela UFRJ, pedagoga pela UFF, especializada em psicopedagogia pela UFRJ, mestre em educação pela UFF, doutora pela UFRJ
Fonte: http://www.lucianacampos.psc.br

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