Confesso que ao escrever o texto anterior e "colocar no papel" tudo o que estou fazendo fiquei meio assustado. Também comecei a avaliar se é saudável fazer tantas coisas ao mesmo tempo.

Deixe eu contar brevemente minha história.

Quando eu era criança sonhava em ser motorista de ônibus e aeronauta. Na adolescência só queria me divertir com os amigos do colégio e da igreja. Na juventude primeiro quis ser músico e depois pastor. Consegui ser músico e pastor. Depois de alguns anos deixei a vida de músico e passei a me dedicar integralmente à vida de pastor e assim vivi até aos quarenta e cinco de idade.

Depois da chegada da crise eu olho para trás e fico com a impressão de que cometi vários equívocos. Penso que o mais importante deles foi me dedicar "com os olhos fechados" à vida de líder religioso. Uso a expressão "com os olhos fechados" para me referir ao modo como me fechei para todo o resto da vida e me entreguei completamente à vida pastoral. Eu vivia o ministério vinte e quatro horas por dia, literalmente. Meus pensamentos, meus propósitos, meu trabalho e meus esforços eram todos voltados apenas para o pastorado e nada mais era importante para mim. A situação era bem mais restrita do que consigo expressar neste texto. Era uma dedicação exagerada, quase doentia.

"...focava no negócio próspero como a única fonte de realização. Se a empresa ia mal, eu também ia" (Larissa Lima)

Essa é uma situação que pode acontecer com qualquer um em qualquer atividade ou profissão. Qualquer pessoa que, como eu, se dedique integralmente e sem freios à profissão, coloque "todas as fichas" em sua atividade principal, molde toda a sua vida em torno de apenas uma área da existência e viva como se apenas esse papel fosse importante vai (provavelmente) enfrentar algum problema.

Então aceite um conselho: Tenha uma profissão, uma atividade principal, aquela que marca sua vida, mas não esqueça do resto. Tenha amigos de fora do seu círculo profissional, cuide de sua família, vá ao shopping, faça vários cursos, vá à praia, tome banho de cachoeira, leia sobre tudo, cuide da saúde, namore bastante, brinque com seus filhos, divirta-se no domingo, vá à igreja, ore, cante muitos cânticos, cante MPB, ouça rock, toque violão, viaje, e faça muitas outras coisas que goste ou que, mesmo não gostando, seja preciso.

Encerro respondendo à pergunta do título: Estou fazendo muitas coisas porque deixei, por meu próprio descuido, de fazê-las durante muito tempo. Não foi culpa de ninguém, eu é que me distraí apenas com uma área da vida e agora quero mudar isso. Como o Multi-homem do The Impossible (Hanna-Barbera, 1966) quero agora ser múltiplo e fazer tudo-ao-mesmo-tempo-agora*.

No próximo post eu conto algumas situações esdrúxulas que esse comportamento provocou.

* Título do sexto disco de estúdio dos Titãs

Conheça o livro:
Contato e comentários: danielglimajr@gmail.com
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