"Há três coisas que permanecem: a fé, a esperança e o amor – e a maior destas é o amor" (1 Coríntios 13:13 – NBV)

Há alguns dias atrás vi o filme "Alice no país das maravilhas" com meus filhos. É uma fábula sensacional com várias criaturas fantásticas e esquisitas que povoam o sonho de uma menina. Já perto da última batalha do filme, quando Alice finalmente derrota o Jaguardarte usando a espada Vorpal, a Rainha de Copas (Cortem-lhe a cabeça!), sentindo-se ameaçada, perde um de seus maiores aliados, e percebendo o perigo de outras deserções e sua iminente derrota decreta: "É muito melhor ser temido do que ser amado!". Será?

"I recently went for Sarpass trek in Himachal Pradesh (India) and found these cute kids at the first base camp called Grahan. When asked they told me they were siblings and they love their life out of the city chaos. They were happy, as the picture shows"
"Eu fui recentemente para a caminhada de Sarpass em Himachal Pradesh (Índia) e encontrei essas lindas crianças no primeiro acampamento chamado Grahan. Quando perguntadas, me disseram que eram irmãos e amam a vida fora do caos da cidade. Elas estavam felizes, como mostra a foto"

As palavras da rainha, que refletem sua personalidade autoritária e impulsiva, me chamaram à atenção. Ela é bem mais atual do que imaginamos, e também reflete a filosofia e o estilo de vida de muitas pessoas, especialmente no que diz respeito aos relacionamentos pessoais de gente que está em alguma posição de liderança.

Vejo com pesar que muitos pastores estão usando esse princípio no exercício de seus ministérios. A opção tem sido pelo temor, temor de "ter medo". Os pastores estão gerando medo em suas ovelhas(?) recorrendo às ameaças do tipo "dê o seu dízimo, senão...", "cumpram as minhas ordens, senão", "não ousem questionar o homem de Deus, senão...", "não toquem no ungido do Senhor...", e outras bobagens nocivas à saúde dos relacionamentos na igreja. Na verdade, morrendo de medo de perderem o controle sobre as pessoas, eles recorrem ao método de gerar mais medo. Preferem ser temidos, e se esquecem de amar e de ser amados.

Não, não é melhor ser temido como a Rainha de Copas diz, mas é mais fácil, sem dúvida. Para ser temido basta a roupa certa, o tom de voz certo, a ameaça certa, a distância certa, o tom de superioridade certo, e, para líderes, é fundamental aquela imagem de que são eles que falam (apenas eles) com o Deus altíssimo. O resultado nós conhecemos: tenha medo daquele cara de terno lá no púlpito, ele é o "homem de Deus".

Alguns pais também estão preferindo o caminho do medo. É mais fácil gerar medo no coração dos filhos, dá menos trabalho. Ao invés de cultivar relacionamentos profundos, os pais fazem a opção pelo terror, e por isso é muito comum ver pais e mães dando ordens aos filhos fazendo ameaças. A ameaça do castigo, da privação do Telebol (desculpe, do Playstation), pode até ser didática, mas precisa ser usada com muito controle, sabedoria e amor.

Famílias precisam de relacionamentos profundos, precisam de respeito mútuo, e precisam de amor. Sem amor não há relacionamento familiar, há apenas um monte de gente morando em uma mesma casa, cheia de regras a serem cumpridas. O resultado disso é o cansaço. Ninguém aguenta viver o tempo todo com medo.

Na mesma direção estão muitos casais. Maridos que ameaçam, que exigem, que "lideram" suas esposas pelo medo. Esposas que ameaçam, que controlam, e que fazem todo tipo de chantagem baseadas no medo. As novelas estão cheias desse tipo de relacionamento conjugal, que fere, amedronta, gera separações e até agressões físicas.

E as amizades? Nossos amigos? Como nos relacionamos com eles. Amamos nossos amigos? Eles nos amam? Estamos juntos pelo medo ou pelo amor e pela amizade? E os namorados? Se amam? Tem medo? O que você está cultivando no coração do seu namorado ou de sua namorada, amor ou medo? Amor incondicional ou medo de perder? E com Deus? Nos relacionamos com ele porque temos medo ou porque o amamos? Certamente Deus quer que o amemos de todo o nosso coração.

Quem é você nessa história? É a Rainha de Copas moderna ou alguém disposto a amar? Ser temido é mais fácil, mas ser amado, apesar de dar mais trabalho, é muito melhor!

Para ser amado é preciso tempo, é preciso aprender a perdoar. Precisamos expor nossas fraquezas, precisamos abrir nosso coração, precisamos de tolerância, precisamos abandonar o preconceito, precisamos rir e chorar juntos, precisamos de misericórdia e compaixão, precisamos da graça de Deus, precisamos dizer a verdade, precisamos de Jesus, precisamos de respeito mútuo, precisamos de humildade e de muitas outras coisas boas.

Penso que a igreja e a família são assim. São lugares para se gerar e experimentar amor e não medo. São lugares de relacionamentos marcados pelo amor. Jamais seremos perfeitos nisso, mas é preciso viver buscando esse tipo de relacionamento, que se constrói sobre o fundamento mais sólido que existe: o amor.

Nunca diga que é melhor ser temido do que ser amado, diga sempre que é melhor ser amado do que ser temido. Seja um pai assim, uma mãe assim, um marido assim, uma esposa assim, um filho ou uma filha assim, um cristão assim, um líder assim, um chefe assim. Seja o que você for, seja uma pessoa marcada pelo amor. É muito melhor. Que Deus te abençoe.

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