Foi no domingo passado. Pela primeira vez em bastante tempo senti que estava adorando a Deus em um lugar comunitário, e, depois de um longo período sem sentido, também fiz uma oração significativa para mim. Uma não, várias.
Estávamos todos no templo. Ele era todo gramado, que se estendia até uma tenda onde estavam os ministros que alternavam cânticos, textos bíblicos e orações. Tudo livremente feito. Não havia promessas de uma vida melhor, apenas adoração. Durante o tempo de adoração eu não fechei meus olhos nenhuma vez, era impossível. Enquanto os ministros não chamavam a atenção de todos para si mesmos eu olhava para a cena toda que enchia meu coração de paz.

Ao lado da tenda havia uma árvore de folhas verdes e flores vermelhas. Ela estendia seus galhos por cima da tenda e dos ministros criando uma imagem natural de beleza indescritível. Ao fundo, dava pra ver as montanhas da Região Serrana do Rio e para completar o espetáculo havia relâmpagos que explodiam no céu formando seus clarões característicos e nos brindando com expressões da natureza que Deus criou, fantástica e bela. Tudo em meio à adoração, à Palavra e às orações.
Como fechar os olhos em um templo assim? Há muito tempo eu não orava como orei nesse dia, de olhos abertos e com tanta profundidade. Realmente foram momentos muito emocionantes para mim. Sentir que estava perto de Deus e das pessoas à minha volta foi como encontrar um tesouro há muito desejado.
Acho que já sou maduro o suficiente para saber que não devo culpar ninguém. Ir à igreja e me sentir desconectado não é culpa de ninguém, mas é assim que minha experiência religiosa tem sido marcada nos últimos anos. Desconectado de Deus e das pessoas que estão perto de mim na adoração é uma coisa incômoda que me deixa vazio de significado e frustrado emocionalmente. Bem disse o Ed Renè Kivitz que "pessoas precisam de Deus, e pessoas precisam de pessoas". Eu sou assim. Sem pessoas o culto fica estranho, sem Deus o culto fica vazio. Deus e pessoas são inseparáveis no culto.
Como o templo onde eu estava no domingo era o céu, o gramado, as árvores, o vento, a chuva, os relâmpagos, as flores, os ministros, o violão, a Bíblia, Deus e as pessoas, então para mim estava completo. Confesso: Foi o culto mais bonito que já fui na vida. Se eu puder voltarei lá muitas vezes, e farei daquele lugar minha igreja, meu templo, meu lugar de devoção.
Também acho que já sou suficientemente maduro para fazer uma reclamação oficial (dirigida sei lá a quem...) sobre um aspecto da igreja. Ao estar lá, olhando para tudo aquilo (lá também tem construções), me entristeci com a pobreza dos templos. É lamentável.
As igrejas hoje são quadradas, não são coloridas, não tem espaço para a natureza, não tem vitrais, afrescos, painéis ou artes nas paredes e nos pisos. Lembro-me de ter entrado uma vez em uma igreja católica em Teresópolis-RJ com um amigo que queria ver os vitrais. Ele queria fazer igual na igreja que pastoreava. Fui lá pregar depois e vi como ficou lindo.
Logo a igreja. Lugar para despertar e cultivar a religiosidade, o culto, a beleza, a inspiração e a devoção criativa. Não tenho nada contra a cor preta, por exemplo, mas acho sem graça. Já tive carro preto, tenho calçados pretos, minha bike é preta e meu time do coração é rubro-negro. O que me incomoda é a falta de criatividade. Melhor deixar sem teto, pelo menos vemos o céu, a lua e as estrelas.
Se algum dia eu voltar a ser pastor "minha" igreja não vai gastar um vintém com construções (só o básico), e por favor, não me venha com aquele papo de que a igreja somos nós, de que a igreja apenas se reúne em um prédio que pode ser de qualquer cor, de qualquer jeito, de qualquer natureza (esta não é uma questão teológica). Acho até que pode, se for realmente necessário, mas acho que não deve, se for escolha. O fato da igreja ser um organismo espiritual não justifica a falta de criatividade. Ainda bem que Deus não pensou assim. Já pensou um céu preto? Se eu fosse construir uma igreja ia plantar um jardim atrás do púlpito, ia deixar o sol entrar, ia fazer arte em suas paredes, o culto teria apenas salmos, canções, hinos espirituais, orações e Palavra. Nada de avisos.
Já visitei a cidade de Ouro Preto-MG duas vezes e pretendo voltar. Fiquei maravilhado. Quanta beleza nas igrejas, nos templos e construções. É uma pena que nós evangélicos tenhamos preferido o extremo. Nada de pinturas. Na visão dos protestantes é idolatria. Uma pena. As igreja de lá (e da região de Mariana, Congonhas, etc.) tem gramado, tem céu, e tem árvores. Uma beleza.
Depois de contar essa experiência quero reforçar a profundidade do culto do qual participei no domingo. Repito: Nada de palavras de ordem. Foi comovente, espiritual, deliciosamente insondável, comunitário e simples.
Eu sei que esse texto pode ser lido em várias partes do mundo (todas elas em Itaboraí), onde sou conhecido e reconhecido como um líder espiritual e religioso. Não sei se continuo sendo essas coisas, mas sei que ao longo dos últimos sete anos me transformei em uma pessoa mais piedosa. Acho que ela, a piedade, me fez partir (agora me dou conta de que já parti) e estou começando a desconfiar de que finalmente estou chegando. A coisa mais inesperada que senti no domingo foi a alegria. Alegria. Alegria! E já que esse texto está uma verdadeira colcha de retalhos aqui vai mais um remendo misterioso: Acho que é hora de partir oficialmente. Quero e preciso de uma vida religiosa simples. Quero ser alegre de novo.

Até breve.

* Não coloquei os nomes das pessoas no texto porque não pedi autorização


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